Primeiro eu quero deixar claro o que é família, maternagem, dinheiro e política aqui. É a partir desses quatro conceitos que eu estruturo meu texto.
Família é o grupo de pessoas unidas por parentesco de sangue, legal ou de afeto, que forma a base da socidade, onde a maioria das pessoas é socializada. É formada, na maioria das vezes, por uma mulher (cis, trans) que exerce a maternidade de uma ou mais crianças. Ela pode ter parido os filhos ou não. Em uma grande parte das vezes, se soma a essa família um homem, que é considerado pai dessas crianças, mas nem sempre ele tem vínculo biológico com essas crianças, pode ser pai pela lei ou pelo afeto. Família pode ser pai-mãe, e também pai-pai, mãe-mãe, mãe-filhos, pai-filhos, vó-netos, irmãos, irmã-irmãos, irmão-irmãs. No nosso caso nós estamos falando de adultos cuidando de crianças, e de mulheres que fazem isso, as mães.
Maternar, como verbo, é cuidado de adultos com as crianças dentro da família. Então, além da mãe, o pai materna (sempre, no feminismo) e outros familiares, não nucleares, podem maternar também, o tio, a tia maternam. A vó materna.
Maternar, como verbo, é cuidado de adultos com as crianças dentro da família. Então, além da mãe, o pai materna (sempre, no feminismo) e outros familiares, não nucleares, podem maternar também, o tio, a tia maternam. A vó materna.
Dinheiro é, basicamente, a voz de quem é dono dele. Porque dinheiro não fala, né? Então "dinheiro" é a voz de quem organiza a roda da fortuna no mundo - empresários, investidores, diretores, acionistas.
Política é a forma do ser humano se organizar em sociedade. É como as pessoas conversam entre si, constroem suas estruturas de auxílio mútuo e de suprimento dos desejos de cada um. A política, pra mim, deve procurar ouvir a todos e buscar sempre satisfazer as necessidades de cada um, para que todos consigam buscar seus desejos sem empecilhos estruturais.
Existe uma política interessante nos países europeus de uma licença parental suficiente, que satisfaz as demandas dos pais e mães (e a culpa e a consciência também) - um ano para cada responsável, por exemplo, contemplando dois anos de vida da criança: a humanidade precisa de crianças, de nascimentos.O feminismo considera o pai tão capaz e responsável pelo cuidado familiar das crianças quanto a mãe. Mas pra conseguir ficar um ano cuidando exclusivamente das crianças, os pais tem que aprender a cuidar desde sempre - por isso o feminismo vê como uma dever mesmo, uma obrigação, o cuidado exercido - e dividido - pelo homem que gerou/adotou a criança desde o nascimento ou adoção e não considera suficiente a visão atual do pai apenas como provedor.
Mas na minha ideia de política, temos que escutar as pessoas conversar. E o feminismo tem que escutar as mulheres e reverberar, ampliar as vozes delas. Assim, a mãe decidir cuidar dos filhos pessoalmente ou delegar esse cuidado não é matéria de crítica do feminismo, é matéria para apoio do feminismo. O feminismo tem que se preocupar em sustentar, de novo, a liberdade das mulheres em serem mães como quiserem ser. Quem quer ficar em casa, vai ter dois anos de licença parental. Quem quer trabalhar, tem creche, babá, escolinha, berçário... conforme desejar e achar melhor pro seu filho e pra sua família.
Se é considerado conservador ficar em casa para criar os filhos é também conservador delegar o cuidado apenas porque o dinheiro precisa disso. A gente vai delegar o cuidado porque a mãe ou o pai querem trabalhar, estudar, ir no museu, viajar, plantar batata, pescar, nadar no mar, fazer bagunça, ir no show de rock, de sertanejo, no baile funk, porque deu na veneta de uma mãe ou um pai delegar esse cuidado, enfim, e não porque o capitalismo precisa de mães e pais que trabalhem X horas ou “rendam o treinamento”.
Eu acredito que trazer essas "desculpas do dinheiro" para o feminismo também valida os discursos de que “não vale a pena investir em treinamentos corporativos para as mulheres, porque elas estão mais dispostas a abdicar da carreira”. O feminismo então vai dizer: “Então porque o dinheiro quer, a "escolha feminista de maternagem" é delegar o cuidado”.
Não, né? Não é valorizando ou elencando como bandeira a terceirização ou a delegação do cuidado à força, à revelia da mulher que é mãe, para atender o capital, que o feminismo deve conversar com o capital. O feminismo precisa sustentar as escolhas conscientes das mulheres quando elas são contrárias às necessidades do dinheiro! Principalmente aí, porque o dinheiro é que não vai sustentar essa liberdade!
Aliás, isso não é feminismo. Não creio que o feminismo coloque na balança a voz das mulheres e a do dinheiro e escolha como válida e "feminista" a voz do dinheiro! Mas também não acho que temos que ignorar a voz do dinheiro, dinheiro é bom. Mas precisamos conciliar o desejo das mulheres, a ética do cuidado que elas apresentam como alternativa à ética do dinheiro. Acho que ISSO É A MINHA REVOLUÇÃO.
Mas e o dinheiro? Nós vamos dizer que, como ideia política, o dinheiro está errado. A mulher (inclusive as que adotam crianças) devem ter a liberdade de decidir sua maternagem independente do que o dinheiro pague/queira/precise! Nós vamos buscar formas de conciliar as necessidades do dinheiro com as necessidades das mães, porque o feminismo entende que existem dificuldades específicas do dinheiro sim, mas dinheiro não tem preferência sobre pessoas!
Política é para gente, não para dinheiro. Feminismo atende gente (preferencialmente mulheres) e não dinheiro. Colocar o dinheiro na frente da voz da mulher é feminismo?
Então, se o dinheiro não está treinando, aceitando, investindo em mulheres por conta da maternidade, contra o que acreditamos ser fundamental - autonomia da família na decisão de maternar, nós vamos buscar alternativas. O Estado pode assumir ou subsidiar alguma parte desse treinamento? Pode fazer isenção de impostos, ou descontos, para garantir equilíbrio no treinamento de homens e mulheres? O Sindicato das Mulheres Trabalhadoras (SMT) pode sugerir uma substituta competente, e com o mesmo treinamento, para suprir essa vaga?
Como a gente pode sustentar, como feminismo, a liberdade da mulher suspender o trabalho pelo tempo que lhe der na telha (por motivos de maternidade ou não, ué, mulher fica doente, vai tomar banho de mar, vai no show de rock e no baile funk etc) em frente às necessidades do dinheiro? Isso é que é revolução, isso é que é feminismo, e não como algumas feministas estão sugerindo – que o feminismo exclua como "não é minha" a voz dessas mulheres!
Essa conversa não é sobre mães ou pais que suspendem o trabalho para maternar por falta de alternativa - por falta de creche, por salários baixos que não compensem o trabalho, por falta de apoio familiar... essas pessoas são o elo mais fraco da sociedade e precisamos ajudá-las urgentemente. Todas nós, feministas, concordamos com isso... as que estão posicionadas com e contra minha fala aqui.
O que está me incomodando bastante são teóricas e ativistas feministas que estão excluindo, das "escolhas feministas", a decisão da mãe, da mulher, de assumir o protagonismo na maternagem. Só como exemplo, a Iara Paiva critica a decisão de a mulher dar um tempo no trabalho e na carreira para exercer maternagem como prioridade:
"Eu acho perfeitamente possível que uma mulher escolha isso pra si [suspender a carreira em favor dos filhos] e se sinta feliz e realizada. Meu problema é se ela defender isso como uma escolha feminista. Porque não é. É algo que está no campo das contradições, as mesmas que eu tenho na minha vida pessoal e que fiz questão de apresentar. Essa mulher, assim como eu, não é menos merecedora de respeito e dignidade. Respeito sua escolha individual, mas se ela apresentar isso publicamente como feminista, não vou arrancar carteirinha, mas vou criticar o discurso. Vou problematizar, vou dizer que se não contempla perspectivas de diferentes modelos de família e de classe sociais, é um discurso falho. Vou dizer que ela, como eu, está reforçando a imagem de que não vale a pena investir em treinamentos corporativos para as mulheres, porque elas estão mais dispostas a abdicar da carreira. E claro, que por mais que ela pessoalmente se sinta bem e “empoderada”, não há nada de empoderador em ter não ter renda própria se a nossa autonomia no mundo capitalista está diretamente relacionada ao dinheiro. E claro, por fim, se os pais, de maneira geral, ganham mais do que as mães, é porque ainda se encara o salário deles como “provedor” – e quando as mulheres saem do mercado de trabalho só endossam isso. Não acho que ninguém tem que ser condenada por não querer deixar filha na creche, mas feminista é delegar cuidado das crianças, não centralizá-lo. E tudo bem fazer escolhas não-feministas. Eu também faço, como contei. Ninguém é feito só de coerência política. Somos, as pessoas todas, feitas de afeto, de paixões, de impulsos." Leiam tudo aqui.Tem duas coisas aí no comentário da Iara. Uma, a decisão da mulher pela perda de autonomia financeira e outra - a decisão pela valoração da voz do dinheiro sobre a voz da mulher. Pra mim, o feminismo não tem que "respeitar" a escolha da mulher que fica em casa. Ele tem que sustentar essa liberdade. O feminismo tem que abraçar as liberdades das mulheres. Não é complicado resolver a questão da autonomia financeira, se considerarmos justificado e essencial o cuidado de qualidade das crianças e a autonomia da família sobre ele: melhores tempos de licença parental dão conta disso.
Existe uma política interessante nos países europeus de uma licença parental suficiente, que satisfaz as demandas dos pais e mães (e a culpa e a consciência também) - um ano para cada responsável, por exemplo, contemplando dois anos de vida da criança: a humanidade precisa de crianças, de nascimentos.O feminismo considera o pai tão capaz e responsável pelo cuidado familiar das crianças quanto a mãe. Mas pra conseguir ficar um ano cuidando exclusivamente das crianças, os pais tem que aprender a cuidar desde sempre - por isso o feminismo vê como uma dever mesmo, uma obrigação, o cuidado exercido - e dividido - pelo homem que gerou/adotou a criança desde o nascimento ou adoção e não considera suficiente a visão atual do pai apenas como provedor.
Mas na minha ideia de política, temos que escutar as pessoas conversar. E o feminismo tem que escutar as mulheres e reverberar, ampliar as vozes delas. Assim, a mãe decidir cuidar dos filhos pessoalmente ou delegar esse cuidado não é matéria de crítica do feminismo, é matéria para apoio do feminismo. O feminismo tem que se preocupar em sustentar, de novo, a liberdade das mulheres em serem mães como quiserem ser. Quem quer ficar em casa, vai ter dois anos de licença parental. Quem quer trabalhar, tem creche, babá, escolinha, berçário... conforme desejar e achar melhor pro seu filho e pra sua família.
Mas as feministas julgam e criticam a mulher que quer ficar em casa além da licença parental, como a Iara colocou, dizendo que isso vai vai atrapalhar todas as mulheres porque escutem só o que o dinheiro diz! O feminismo afasta essas mulheres intencionalmente!
E além do mais, é complicada essa visão, né? Não é uma "escolha feminista" defender a voz do dinheiro em detrimento da voz da mulher. Nisso eu discordo completamente da Iara e acho que as justificativas dela não me representam. Delegar a liberdade das mulheres às decisões do dinheiro não é feminismo!!!
Se é considerado conservador ficar em casa para criar os filhos é também conservador delegar o cuidado apenas porque o dinheiro precisa disso. A gente vai delegar o cuidado porque a mãe ou o pai querem trabalhar, estudar, ir no museu, viajar, plantar batata, pescar, nadar no mar, fazer bagunça, ir no show de rock, de sertanejo, no baile funk, porque deu na veneta de uma mãe ou um pai delegar esse cuidado, enfim, e não porque o capitalismo precisa de mães e pais que trabalhem X horas ou “rendam o treinamento”.
Eu acredito que trazer essas "desculpas do dinheiro" para o feminismo também valida os discursos de que “não vale a pena investir em treinamentos corporativos para as mulheres, porque elas estão mais dispostas a abdicar da carreira”. O feminismo então vai dizer: “Então porque o dinheiro quer, a "escolha feminista de maternagem" é delegar o cuidado”.
Não, né? Não é valorizando ou elencando como bandeira a terceirização ou a delegação do cuidado à força, à revelia da mulher que é mãe, para atender o capital, que o feminismo deve conversar com o capital. O feminismo precisa sustentar as escolhas conscientes das mulheres quando elas são contrárias às necessidades do dinheiro! Principalmente aí, porque o dinheiro é que não vai sustentar essa liberdade!
Aliás, isso não é feminismo. Não creio que o feminismo coloque na balança a voz das mulheres e a do dinheiro e escolha como válida e "feminista" a voz do dinheiro! Mas também não acho que temos que ignorar a voz do dinheiro, dinheiro é bom. Mas precisamos conciliar o desejo das mulheres, a ética do cuidado que elas apresentam como alternativa à ética do dinheiro. Acho que ISSO É A MINHA REVOLUÇÃO.
Mas e o dinheiro? Nós vamos dizer que, como ideia política, o dinheiro está errado. A mulher (inclusive as que adotam crianças) devem ter a liberdade de decidir sua maternagem independente do que o dinheiro pague/queira/precise! Nós vamos buscar formas de conciliar as necessidades do dinheiro com as necessidades das mães, porque o feminismo entende que existem dificuldades específicas do dinheiro sim, mas dinheiro não tem preferência sobre pessoas!
Política é para gente, não para dinheiro. Feminismo atende gente (preferencialmente mulheres) e não dinheiro. Colocar o dinheiro na frente da voz da mulher é feminismo?
Então, se o dinheiro não está treinando, aceitando, investindo em mulheres por conta da maternidade, contra o que acreditamos ser fundamental - autonomia da família na decisão de maternar, nós vamos buscar alternativas. O Estado pode assumir ou subsidiar alguma parte desse treinamento? Pode fazer isenção de impostos, ou descontos, para garantir equilíbrio no treinamento de homens e mulheres? O Sindicato das Mulheres Trabalhadoras (SMT) pode sugerir uma substituta competente, e com o mesmo treinamento, para suprir essa vaga?
Como a gente pode sustentar, como feminismo, a liberdade da mulher suspender o trabalho pelo tempo que lhe der na telha (por motivos de maternidade ou não, ué, mulher fica doente, vai tomar banho de mar, vai no show de rock e no baile funk etc) em frente às necessidades do dinheiro? Isso é que é revolução, isso é que é feminismo, e não como algumas feministas estão sugerindo – que o feminismo exclua como "não é minha" a voz dessas mulheres!